Frederico Santos, freguês de Avenidas Novas, reúne uma coleção de emblemas com mais de 80 mil peças que contam a história e a evolução do desporto, a nível nacional e internacional.

De onde vem o seu gosto pelo desporto?
Isto ou se nasce ou não se nasce com espírito de colecionador. Se se nasce, começa-se logo de miúdo a colecionar botões, selos, caixas de fósforos, berlindes, isto e aquilo. Tudo e mais alguma coisa. Foi o que me aconteceu a mim, tinha coleções de milhentas coisas.
Entretanto, tive a infelicidade de o meu pai falecer quando eu tinha 18 anos. Tive que interromper os estudos superiores e fiquei só com o curso Industrial. Era para ir para a Escola Náutica. Entretanto uma pessoa amiga arranjou-me dois empregos: na Companhia de Seguros Império, que tinha acabado de ser fundada e na Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
Aí, como eu comecei a receber emblemas “a torto e a direito”, pensei: se eu estou a ser medíocre numa quantidade de coisinhas, vou pôr isto tudo de parte e vou tentar ser bom numa. E parece que consegui.

Relativamente ao desporto, chegou a praticar alguma modalidade?
Joguei futebol até aos 34 anos. Joguei no Belenenses e, mais tarde, no Grupo Desportivo do Império.

Já nos disse que começou a coleção de emblemas quando trabalhava na FPF, porque acabava por receber muitos deles. E, antes, já tinha alguma coleção?
De jeito não. Acabei por pôr tudo de parte: caixas de fósforos, botões, cromos, rebuçados.

Qual foi a primeira peça da sua coleção?
Foi o meu pai que me deu. Foi um do meu clube, o Belenenses.

Esse é portanto o emblema mais antigo que tem na coleção…
Em princípio. É o que eu considero o número 1.

Quantos emblemas é que tem, no total?
Neste momento, são 83 388 emblemas.

E como é que conseguiu, ao longo de todos estes anos, ir juntando esses emblemas?
Como tinha muita coisa, repetidos e tudo, comecei a ter muitos contactos, nacionais e internacionais. Nacionais há muito poucos, cá ninguém coleciona nada de jeito. Também já fiz muitas viagens: fui cinco vezes aos Estados Unidos a convenções de colecionadores, já fui à Suécia não sei quantas vezes, à Polónia, a Espanha vou constantemente e por aí fora.

Como é que organiza os seus emblemas?
Nos nacionais, tenho-os por distrito e, mesmo assim, nos mais avultados como Lisboa ou Porto tenho os de futebol separados dos outros desportos. Para os internacionais, é por países.

Também organiza por competições, por exemplo os jogos olímpicos?
Ah! A parte olímpica é outra coisa e é muito importante na minha coleção. Pela beleza principalmente. Aí, se tenho quantidade suficiente de uma olimpíada, faço estojos ou quadros. Se não tenho, ponho no país.

Já expôs a sua coleção em vários locais. Alguma o marcou de maneira especial?
Expus, uma vez na FPF, há muitos anos. Mas a principal foi esta última, em 2009, na Torre do Tombo.

Há algum local onde gostasse de ver a sua coleção exposta?
O Pavilhão Carlos Lopes. Era aqui.

Através da sua coleção podemos conhecer um bocadinho a história do desporto?
Sim, espelham a evolução do desporto, principalmente nacional. Tenho aqui a história dos clubinhos pequeninos, as fusões e os desaparecimentos, está tudo aqui.

A nível nacional, tem ideia de quantas peças tem?
Anda a volta de 11 mil.

Há pouco disse-me que era do Belenenses. Coleciona também a evolução do emblema do Belenenses ou tem alguma coleção específica só para as modalidades deste clube?
Não. Isso tenho para qualquer clube, tenho agrupamentos.

E faz isto para os diferentes clubes nacionais?
É. Tenho aqui (do Sporting Clube de Portugal) um com as picaretas que foi quando demoliram um estádio para fazer outro, tenho aqui outro dos Prémios Stromp (um dos fundadores do clube), que é uma coisa que eles só dão a um indivíduo por ano.
E tenho também originais do Benfica, oferecidos pelo clube. Até tenho emblemas dos dois clubes que se ligaram para formar o Benfica. Era o Sport Lisboa e o Sport Benfica.

Tem algum contacto diretamente com os clubes para conseguir estes emblemas?
Não, é tudo entre colecionadores. Através de trocas ou feiras. Arranjo muita coisa em feiras antigas.

Nota-se que é um trabalho que tem gosto em fazer…
É. Agora não sei o que vai ser de mim porque eu vou ter que sair desta casa e não sei como é que vai ser. Vão vender o prédio, estando eu aqui há 60 anos e tendo 93 de idade. Está aqui um lindo sarilho…
Para mim, uma coleção baseia-se numa triologia: quantidade, qualidade e organização. Eu, em quantidade, com os meus 80 e tal mil acho que sou bom. Qualidade: sei o que tenho em casa, também acho que sou bom. E em organização, eu já vi montes de coleções e já vieram a minha casa muitos colecionadores.
Ainda não há muito tempo apareceu-me cá um casal de australianos. Vieram de Melbourne para me comprar a coleção. Eu não quis vender.
Então, como digo, em organização, não vi melhor. Tenho tido o gosto de ouvir dos que cá vêm a casa dizer “bem, em organização, você está à minha frente”. Em organização ninguém me bate.
Mas quem é que liga a isto? É um desgosto